Mais cantigas… sexta-feira, jun 13 2008 

Seguindo o modelo de análise dos últimos posts, deixarei mais algumas cantigas que serão analisadas psoteriormente. Assim, podemos tentar nos familiarizar com a escrita e o idioma em que foram criadas. Sugiro que consultem o pequeno glossário que foi postado em 13 de maio.

Bem, vamos aos poemas.

 

– Filha, se gradoedes,

Dizede que avedes.

-Non mi dan amores vagar

.

– Dizede, pois vos mando,

por que ides chorando.

-Non mi dan amores vagar.

 

– Par San Leuter vos digo:

Cuidand’en meu amigo,

Non me dan amores vagar.

*

O anel do meu amigo

perdi-o so lo verde pinho

e chor’eu, bela!

 

O anel do meu amado

perdio so lo verde ramo

e chor’eu, bela!

 

Perdio so lo verde pinho;

por en chor’eu, dona virgo,

e chor’eu, bela!

Perdio so lo verde ramo,

por en chor’eu, dona d’algo,

e chor’eu, bela!

 

 

 

Meu amigo quando s’ia,

preguntei-o se verria;

disse-m’el: verrei mui cedo.

De tardar mais ca soia,

madr’e, ei em eu mui gran medo.

 

*

 

Ondas do mar de Vigo,

se vistes meu amigo!

Eeai Deus, se verrá cedo!

 

Ondas do mar levado,

se vistes meu amado!

e ai Deus, se verrá cedo!

 

Se vistes meu amigo,

o por que eu sospiro!

e ai Deus se verrá cedo!

 

Se vistes meu amado

por que ei gram cuidado!

e ai Deus se verrá cedo!

 

 

 

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Análise das cantigas. quarta-feira, jun 4 2008 

Retomando o post anterior, vamos agora analisar a cantiga de Bernal de Bonaval. Para que nenhum detalhe fique oculto, vamos seguir linha por linha, e colocaremos a tradução das palavras e posteriormente a interpretação de cada estrofe:

 

 

– Ai, fremosinha, se ben ajades,

fremosinha= formozinha, mocinha.

se ben ajades= se me levas bem, se me permite

 

Nesta linha, temos a presença da personagem feminina, a fremosinha, que esta sendo interpelida por alguém, que se aproxima de forma educada (se ben ajades).

 

longi de vila quen asperades?

asperades= esperais, espera.

 

O personagem, que até o momento não sabemos se é homem ou mulher, pergunta o que a tal jovem faz distante de sua casa, da vila. E ao mesmo tempo, insinua que ela deve estar esperando por alguém, talvez escondida dos olhos de conhecidos.

 

– Vin atender meu amigo.

atender= esperar.

amigo= namorado.

 

Este é o refrão. Possivelmente, esta frase esconde uma resposta velada, falada apenas no pensamento da moça. Veremos mais adiante, que é comum nas cantigas de amigo que haja um jogo de galanteios, de perguntas com insinuações ocultas, para que no final, o cortejo seja deixado de lado, dando lugar à uma pergunta incisiva, definitiva.

 

– Ai fremosinha, se gradoedes,

longi da vila quen atendedes?

– Vin atender meu amigo.

 

se gradoedes=  (variação de se ben ajades) se desejais, se permitis.

atendedes= (variação de asperades) esperas, aguardas.

 

O interlocutor da fremosinha continua insistindo em saber por quem a moça espera. Ele assume uma posição de galanteador, possivelmente é um homem, talves um cavaleiro, ou andarilho, que passando próximo a vila, ou então caminhando por ermos topou com a moça desacompanhada, e quis saber se havia alguém cuidando dela. Suas insinuações assumem um cunho erótico, pois a fremosinha foi surpreendida, logo, podemos supor que seu encontro com o namorado esteja na ilegalidade.

 

  

– Longi de vila quen asperades?

– Direi-vo-l’eu, pois me preguntades:

Vin atender meu amigo.

 

 

– Longi de vila quen atendedes?

– Direi-vo-l’eu, poi-lo non sabedes:

Vin atender meu amigo.

 

Nestas duas últimas estrofes, o interlocutor deixa de lado os galanteios e parte para a pergunta direta: quem a moça espera, sozinha e escondida? Como resposta, a fremosinha também fala abertamente, que está esperando seu namorado. Fica assim evidente que a resposta dada pela personagem resulta principalmente da pressão psicológica realizada pelo outro personagem. Logo, temos a confirmação de que o encontro dela com o a migo é realmente ilícito, por isso deveria ser realizado às escondidas.

A forma poética. quarta-feira, maio 28 2008 

Em muitas cantigas de amigo, encontramos uma estrutura rítmica e versificatória que pode ser criada de acordo com um modelo simples. Em a História da Literatura Portuguesa, este modelo é definido do seguinte modo: o ritmo é conferido por um par de estrofes, “ou, mais precisamente, o par de dísticos, dentro do qual ambos os dísticos querem dizer o mesmo, diferindo só, ou quase só, nas palavras da rima, que são de vogal tônica a num dos dísticos de cada par, e  i ou ê no outro; o último verso de cada estrofe é o primeiro verso da estrofe correspondente no par seguinte. Cada estrofe vem seguida de refrão” (p. 57). A este esquema, deu-se o nome de paralelismo.

Abaixo, usaremos uma cantiga e aplicaremos esta definição para visualizarmos como ocorre esta estrutura. Em 1º lugar, apresentaremos a cantiga tal qual ela é, e depois, com as indicações de sua forma.

 

Autoria: Bernal de Bonaval.

 

– Ai, fremosinha, se ben ajades,

longi de vila quen asperades?

– Vin atender meu amigo.

 

– Ai fremosinha, se gradoedes,

longi da vila quen atendedes?

– Vin atender meu amigo.

 

– Longi de vila quen asperades?

– Direi-vo-l’eu, pois me preguntades:

Vin atender meu amigo.

 

– Longi de vila quen atendedes?

– Direi-vo-l’eu, poi-lo non sabedes:

Vin atender meu amigo.

 

*

 

estrofe 1

– Ai, fremosinha,/ se ben ajades, verso A

longi de vila / quen asperades? verso B

– Vin atender meu amigo. refrão

 

estrofe 2

– Ai fremosinha, / se gradoedes, verso A’ (variante de A)

longi da vila / quen atendedes? verso B’ (variante de B)

– Vin atender meu amigo. refrão

 

estrofe 3

– Longi de vila / quen asperades? verso B

– Direi-vo-l’eu, / pois me preguntades: verso C 

Vin atender meu amigo. refrão

 

estrofe 4

– Longi de vila / quen atendedes? verso B’

– Direi-vo-l’eu, / poi-lo non sabedes: verso C’ 

Vin atender meu amigo. refrão

 

 

Temática das cantigas de amigo. terça-feira, maio 20 2008 

Hoje falaremos das características das cantigas de amigo. Em 1º lugar, o que mais se conhece sobre esta poesia é que seu eu lírico é feminino e o poeta-compositor das cantigas é masculino, afinal sua produção ocorre na Idade Média, período em que as mulheres estavam excluídas da vida intelectual.

Uma boa parte das cantigas de amigo remete a uma vida campesina. Geralmente a protagonista é uma moça, que se encontra com o namorado (“o amigo”) às escondidas, que vai ao rio lavar roupas, ou os cabelos e que fala com a natureza pedindo o retorno do amigo ausente: pinheiros, fontes, ondas do mar, são sempre evocados na esperança de rever o amado.

 

Alguns estudiosos, dizem que a cantiga feminina nasceu em um núcleo rural, pois, nestas comunidades mais agrárias a mulher ocupa uma posição mais relevante socialmente. Por ter esta origem local e ter sido adaptada por poetas de épocas e meios sociais dos mais variados, estas composições convergeram-se em poesia folclórica, ou seja, que retratam um estilo de vida muito primitivo de um povo, ou grupo social. Assim, encontramos nas cantigas muitos elementos simbólicos, principalmente relacionados com a paisagem, que assume também o papel de personagem e também temos a presença de regionalismos arcaicos, como traços religiosos das cantigas de romaria.

 

Segundo António J. Saraiva, na História da Literatura Portuguesa, é usual “classificar as cantigas de amigo, segundo as seus temas, em bailadas ou bailias, cantigas de romaria, marinhas ou barcarolas, a que, não menos justificadamente, se poderiam acrescentar cantigas de fonte, de cenas venatórias, de amiga e mãe, de amiga e amigas (às vezes designadas como irmanas), de despedida, etc.”(p. 64)

 

Portanto, temos acima definidos os temas mais comuns destas poesias. Além disto, encontramos uma excelente caracterização da mulher, com nuances de personalidade e sentimentos, o que nos leva à crer que o poeta-compositor possuía uma grande experiência da vida sentimental de sua época. Como vimos, as cantigas de amigo não são simples no sentido de superficialidade, nem ingênuas. Elas traduzem conflitantes relações amorosas e sociais, ao contrário do que muitos livros de literatura para o ensino médio sugerem.

 

Na próxima coluna falaremos de outra parte fundamental no estudo das cantigas de amigo, que diz respeito à forma e ao paralelismo.

 

A fremosinha.

Pequeno glossário antes das poesias… terça-feira, maio 13 2008 

Antes que entremos nas análises poéticas das cantigas de amigo, segue-se um glossário básico, para que o entendimento do português arcaico e do galego seja facilitado:

  • Se bem hajades: se me permite
  • Atender: esperar
  • Asperades: (quem) esperais
  • Grado: vontade, desejo
  • Gradoedes: se desejades, se permitis
  • Pois: uma vez que, já que, desde que, depois
  • Vagar: repousar, descanso
  • Mençades → mença: mentira (non mençades= “não minta”)
  • Hajades: permite
  • Par: por
  • Cuidar: sismar, pensar
  • Cuidar’em: pensar amorosamente, estar apaixonado
  • Manh’eu: permaneço, fico
  • Senlheira: sozinho, estar só
  • Sol: só, apenas, nem mesmo
  • E quant’eu: tanto quanto eu
  • Peç’a luz: pedir graça, orar, rogar
  • Per nulha: por nenhuma, de jeito algum
  • Mais: mas
  • Masesse: ficasse
  • Seria: estaria
  • Migo: comigo
  • Rem: nada
  • Lume: luz
  • Non hei sabor: desconheço, aquilo que não tem gosto
  • Avento: advento (4º domingo antes do natal, fins de novembro)
  • Pesar: pesaroso, lastimável
  • Soía→ soer: costumava
  • Coita: dor causada pela ausêcia do amante, sofrimento amoroso
  • Sobeja: excesso
  • Vegada: vez, turno
  • Ataes: iguais
  • Sô-lo: sob o
  • Bela: moça, jovem, donzela, que tem viço
  • Por én: por isso
  • Dona: senhora do castelo, título de nobreza, aristocracia
  • Virgo: virgindade, juventude
  • Dona d’algo: mulher de alta nobreza (lembrar de fidalgo, ou filho d’algo, aquele que vem de uma linhagem importante)
  • Abafordar: jogar justa
  • Per i: por alí
  • Catei: vi, observei
  • Sabor: gosto, agrado
  • Filhar: tomar, raptar, sequestrar
  • U m’enmentou: declarou-se, me falou

 

Lírica Trovadoresca – considerações fundamentais. quarta-feira, maio 7 2008 

  • As 1ªs manifestações literárias estão relacionadas às práticas orais.
  • A fixação dos textos geralmente ocorre em um período posterior à popularização da poesia oral.
  • Mouvance: movimentação, não fixação de um texto único, ou seja, o original recebe diversas interferências, desde o próprio modo de transmissão até a fixação do texto por escribas.
  • Seguiremos hipóteses construídas acerca da produção textual e operaremos com interpretações de vestígios do período.
  • Levaremos em consideração o primado do texto, que consiste em entrar em contato com os textos, antes de conhecer as teorias que o rodeiam. Buscaremos as diferenças, pois é nas dificuldades que tiraremos nosso aprendizado sobre o período e a mentalidade poética. Ou seja, os textos serão os protagonistas de cada análise literária.
  • Não existem leituras completamente definitivas. Assim, buscaremos leituras coerentes que reúnam o maior número de argumentos possíveis. Leituras detalhadas trazem à tona os mistérios do texto.
  • A temporalidade entre a produção da obra e o modo como ela é lida contemporaneamente é muito variada. O levantamento de hipóteses é que revelará o texto.

Influência francesa na poesia trovadoresca. terça-feira, abr 29 2008 

Na Provença, onde a poesia lírica medieval encontra seu centro irradiador, o poeta era chamado troubadour, cuja forma correspondente em Português é trovador, da qual deriva trovadorismo.

No norte da França, o poeta recebia o apelativo trouvère, cujo radical é igual ao anterior: trouver (=achar): os poetas deviam ser capazes de compor, achar sua canção, cantiga ou cantar, e o poema assim se denominava por implicar o canto e o acompanhamento musical.

É fundamental a presença francesa em Portugal.

D. Henrique (pai de Afonso I, o primeiro rei português), ao se casar com D. Teresa, herdou o então Condado Portucalense e, para lá, levou consigo muitos senhores franceses. Também o clero teve papel muito importante na difusão da cultura francesa, com as ordens de Cluny e de Cister atuando na península, e implantando a substituição da escrita visigótica pela carolíngia.

   

Em relação à produção lírica, de que trataremos neste blog, temos, desde o séc. XI, na Provença, uma intensa atividade lírica que terá um papel muito especial nas cortes portuguesas (só para constar, os artistas provençais tinham inúmeros benefícios e luxos concebidos pelos senhores feudais!). Este mundo aristocrático, cortesão servia de matriz para a produção artística, e a partir daí, espalhava-se pelo povo, por meio das feiras, e festas religiosas.

Voltando a Portugal, com o movimento cruzadista, Lisboa transformou-se em um importante porto para o embarque à Jerusalém, fato que trouxe grande movimentação para o reino. Os peregrinos entravam em solo português pelo chamado “caminho francês”, nos Pirineus. Jograis que estavam entre os romeiros, introduziram a nova moda poética. Assim, a poesia autóctone (poesia popular de velha tradição) se funde com a poesia provençal, resultando numa produção original, o trovadorismo com as cores portuguesas. É na segunda metade do séc. XIII que a poesia medieval portuguesa alcança seu ponto alto.

A poesia trovadoresca apresentava- se em dois grupos principais: a lírico-amorosa e a satírica. A primeira divide-se em cantiga de amor e cantiga de amigo; a segunda, em cantiga de escárnio e cantiga de maldizer. O idioma empregado era o galego-português, em virtude da então unidade lingüística entre Portugal e a Galiza.

Sobre o período… terça-feira, abr 22 2008 

 

Podemos situar a poesia trovadoresca no período que abrange as guerras de reconquista do solo português. O mundo retratado nesta poesia é anterior às revoluções burguesas.

 

A moral religiosa (catolicismo) e seus conflitos (mouros x cristãos) guiam as manifestações sócio-culturais e são determinantes para as transformações que abalaram o ancient regime. Neste período, as questões pertinentes à religião são fundamentais. As classes sociais são imóveis e o acesso à cultura é permitido somente aos nobres ligados ao clero (vale lembrarmos dos mosteiros, que foram os locais onde os clássicos e a filosofia foram confinados e preservados).

 

Durante a Idade Média, boa parte do território da Península Ibérica encontrava-se sob domínio árabe (praticamente todo o sul andaluz, além das terras moçárabes, que eram regiões cristãs que receberem enorme influência mourisca). Afonso Henriques inicia o processo de reconquista do território sul da península, e deste modo é aclamado rei de Portugal e Coimbra. Em 1249, Afonso III retoma o sul do país, expulsando definitivamente os mouros de Portugal.

 

 

A sociedade deste período é regida por questões de linhagem e hierarquia. Apesar de a idade média já se encontrar em declínio, as relações entre senhores e vassalos ganham destaque nas produções poéticas francesa e ibérica. Há divisões hierárquicas até na classe dos poetas.

 

A fremosinha.

Tudo tem um começo… terça-feira, abr 15 2008 

CENA

 

Altas torres.
Largos rios.

 

FADA

Toma o anel de bodas
que levaram teus avós.
Cem mãos. sob a terra,
estão fazendo pouco dele.

EU

Vou sentir em minhas mãos
uma imensa flor de dedos
e o símbolo do anel.
Não o quero.

Altas torres.
Largos rios.

[Federico García Lorca]

 

O poema Cena foi escolhido para abrir este blog, devido sua “temática” que remete, mesmo que modernamente, à algumas imagens recorrentes nas cantigas de amigo: à começar pela paisagem de altas torres, tal qual castelos medievais; temos o anel, como símbolo de promessa de compromisso, que alcança às vezes conotação erótico-simbólica; entretanto, como veremos nas próximas postagens, essas tópicas (espécie de lugares comuns) que rodeiam a poesia trovadoresca, são muito específicas, e conferem aos poemas um “jeito” de história de avó.

À propósito, nos próximos posts  entraremos no trovadorismo, suas temáticas e implicações literárias.

Sejam todos bem vindos!

A fremosinha.

O propósito do site. terça-feira, abr 8 2008 

Este blog foi criado com o objetivo de ser uma ferramenta de apoio para aqueles que se interessam pelos estudos de literatura medieval portuguesa. Inicialmente, vamos nos deter na análise e transcrição de poemas em galego-português, começando pelas cantigas de amigo.  Este site também será usado como projeto final para a disciplina Tópicos em História Literária Portuguesa I (TL107-C), ministrada no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na Unicamp.

Sobre a linguagem usada no blog, pretendo que seja a mais simples possível, afinal, a idéia  é facilitar o entendimento dos assuntos aqui tratados, para que os temas estudados em sala de aula sejam acessíveis para todos que se interessarem. Vou tentar seguir, ao menos neste início, o programa da disciplina, e no decorrer do tempo, passar indicações bibliográficas, dicas de arte, cinema e curiosidades acerca deste vasto e rico  território da literatura medieval.

Que todos tenham uma boa leitura…

A fremosinha.